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Oficina em Breves reúne agroextrativistas de três Unidades de Conservação do Marajó

“Quando a gente compartilha e troca conhecimentos a gente tá [sic] construindo uma nova forma de fazer a mesma coisa. São outros olhares”. Foi com esse argumento que o produtor agroextrativista Jesus de Nazaré dos Santos Oliveira definiu os momentos de integração vivenciados por moradores das Reservas Extrativistas (Resex) Mapuá, Arióca Pruanã e Terra Grande-Pracuúba durante a Oficina de Diagnóstico e Planejamento do Projeto Florestas Comunitárias, realizad       a em Breves, no Instituto Federal do Pará (IFPA/Campus Breves), do dia 29/01 ao dia 01/02, pelo Instituto Floresta Tropical (IFT) em parceria com o Fundo Amazônia e apoio do Grupo de Trabalho do Manejo Florestal Comunitário do Marajó (GT MFC do Marajó).

A atividade compõe o calendário do projeto cujo objetivo é apoiar a implementação de modelos de manejo florestal comunitário para uso e comercialização de madeira e açaí. Florestas Comunitárias é uma iniciativa que pretende fortalecer a organização social, gerar renda e contribuir para a redução do desmatamento em Unidades de Conservação. A oficina foi acordada com os moradores do território durante caravana ocorrida nos meses de novembro e dezembro de 2017. Na ocasião, foram eleitos pelo menos três representantes comunitários por polo, totalizando cerca de 60 pessoas responsáveis por acompanhar as atividades de planejamento do projeto e comprometidas em levar informações aos demais moradores das Resex.

De forma lúdica, moradores das três Resex compartilharam conhecimentos.

Participaram da atividade 56 pessoas, dos quais 40 foram representantes de 16 polos comunitários das três Resex. A presença feminina foi um diferencial, 14 mulheres estiveram no evento, o que representa 35% do número de produtores agroextrativistas presentes. O debate sobre equidade de gênero e a importância do trabalho feminino nas atividades agroextrativistas foi levantado ao longo do evento, as contribuições das mulheres foram um diferencial no trabalho. Além do IFT e das entidades integrantes do GT MFC do Marajó que organizaram o evento, como Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), estiveram representadas, também, instituições como: Associação dos Moradores da Resex Mapuá (Amorema), Cooperativa Agroextrativista dos Rios Mapua e Arama (COAMA), Associação dos Moradores da Resex Terra Grande-Pracuúba (Amoretegrap) e Associação dos Moradores da Resex Arióca Pruanã (Amoreap).

Morador de Reserva Extrativista observa resultados da oficina.

Na Oficina de Diagnóstico e Planejamento do Projeto Florestas Comunitárias, os participantes puderam compartilhar conhecimentos e juntos construíram o calendário produtivo, realizaram o diagnóstico das cadeias produtivas da madeira e do açaí, assim como o diagnóstico situacional das organizações sociais e o planejamento das ações futuras do projeto. Os comunitários ora participavam de palestras coletivas, reunindo moradores dos três territórios, ora dividiam-se em três espaços para levantamento de informações específicas por meio de metodologias participativas.

De acordo com Ana Carolina Vieira, coordenadora do Programa Florestas Comunitárias do IFT, a integração nos espaços comuns é uma forma de trocarem informações e articularem ações de fortalecimento. “Essa troca entre eles é importante porque fortalece as relações e traçam estratégias articuladas. As informações levantadas vão nortear a implementação das ações do Projeto seguindo as demandas e prioridades locais. Por isso é importante reunir os comunitários, ouvi-los e estimulá-los a participar. Quando eles falam estão nos mostrando a realidade como ela é, a partir das próprias vivências é aí que mora a riqueza desse tipo de atividade”, explica.

Ana Carolina Vieira, do IFT, dialoga com público da oficina.

O projeto é visto por alguns participantes como a oportunidade de transformação que tanto esperavam. O produtor Alderir de Deus Matos, morador da comunidade Castanheira, na Resex Arióca Pruanã, conta que há 13 anos, desde que a Reserva foi criada, esperam uma iniciativa capaz de fomentar as cadeias dos produtos da floresta. “Aqui nesse evento estamos tendo clareza dos desafios que teremos pela frente se a gente [sic] quiser trabalhar com madeira e açaí. Temos o potencial, agora é hora de se organizar para fazer dar certo. Assim teremos a mudança que a gente tanto quer que é garantir preços justos no produto da gente, porque a gente [sic] vai ter como contratar, fazer parcerias com empresas do estado município ou internacional e vamos vender pelo melhor preço e que seja um preço justo e fixo, porque até agora os compradores entram lá e compram por um preço muito baixo, como não temos como escoar a produção, a gente é obrigado a vender”, denuncia.

Mapeamento participativo

Para que realizassem o mapeamento participativo de forma efetiva, foi realizado uma palestra de alinhamento sobre noções de produção de mapas. O momento foi conduzido pelo engenheiro de projetos do IFT, Marcelo Galdino, e o técnico instrutor André Miranda. “Nossa ideia era justamente apresentar para que servem os mapas, a importância desse instrumento já que estamos falando de produção em cadeia, como se dá a leitura de mapas, quais as aplicabilidades do mapeamento participativo no ordenamento territorial e gestão socioambiental dos territórios tradicionais”, conta André.

Público da oficina durante mapeamento participativo.

Foram elaborados quatro mapas em cada Resex. “Eles conseguiram dimensionar em um mapa as infraestruturas comunitárias, como igrejas, escolas e sedes comunitárias, a ideia desse mapa é ter um dimensionamento da distribuição das comunidades ao longo do território. Além desse, um outro mapa apontou as áreas potencias para manejo florestal da madeira e um terceiro apontou as áreas de açaizais. No quarto e último mapa eles desenharam onde estão as regiões com incidência de outros produtos que utilizam como fonte de renda e subsistência, como a andiroba, a virola, o buriti e o bacuri, por exemplo”, comentou Galdino.

O produtor Izaias Moraes Martins, de 47 anos, morador da comunidade Humarizal, na Resex Terra Grande-Pracuúba, acredita em processos compartilhados que unem o conhecimento tradicional ao técnico como ferramenta de aprimoramento do que eles já sabem e como forma de difundir os saberes da floresta. “Um exemplo disso é o mapeamento que realizamos, com as técnicas de desenho de mapas dominada pelos técnicos e a nossa forma de enxergar o território e usar ele para nosso benefício, nós podemos tirar novos conhecimentos sobre a terra e olhar para nossos locais de trabalho com um outro olhar”, conta.

Como parte da programação, os gestores das Resex Mapuá e Arióca Pruanã, analistas do ICMBio, Nayane Menezes e Patrick Rabelo, respectivamente, apresentaram a gestão compartilhada como elemento central para fortalecimento da relação entre poder público e moradores das unidades. “Em momentos como este, é fundamental apresentar as estratégias de gestão que são utilizadas pelo órgão e dialogar sobre o que são territórios coletivos, quais as normas regem a vida deles, legislações e regras que dirigem as ações nesse tipo de ambiente. É importante compartilhar para que eles sejam multiplicadores dentro da reserva”, argumenta Nayane.

Patrick Rabelo, analista do ICMBio, apresenta conceitos sobre gestão compartilhada.

A construção do calendário produtivo foi um importante momento para os participantes, sobretudo pela possibilidade de identificar no espaço-tempo, por meio de iconografias desenhadas à própria mão, os produtos e as atividades do agroextrativismo ao longo do ano  realizado no interior das Reservas. Antes de partirem para elaboração dos calendários, a organização explicou como a ferramenta pode contribuir no processo de planejamento produtivo e estruturação da comercialização dos produtos. “Os calendários mostram em qual época do ano ocorre cada etapa da atividade produtiva de determinado produto, como o período de safra, o período de manejo dos açaizais e dos outros produtos como a farinha, andiroba. Dessa vez, nós trabalhamos principalmente com madeira e açaí, mas não deixamos de verificar outros que surgiram”, comenta Ana Carolina.

Durante a oficina os produtores agroextrativistas construíram o calendário produtivo.

Cadeias de valor

Cadeia de valor é o conjunto de atividades desempenhadas por uma organização desde as relações com os fornecedores e ciclos de produção e de venda até à fase da distribuição final. Como ferramenta para mapear a cadeia de valor sustentável da produção do açaí e da madeira foi utilizada durante a oficina a metodologia Value Links, uma metodologia criada pela GTZ para orientar o processo de promoção de cadeias. “Foi a oportunidade de criar um ambiente em que os próprios produtores pudessem pensar sobre todo o processo de implementação da cadeia, valores dos produtos e técnicas realizadas tradicionalmente. Tudo isso construído de forma lúdica com uso de imagens, palavras, corte e colagem. O resultado será sistematizado e vai auxiliar a construção de um plano de negócios, e dar elementos para o estabelecimento de um marco zero e nortear as ações de fortalecimento das cadeias produtivas envolvidas no projeto Florestas Comunitárias, para que possamos avaliar os resultados efetivos das ações no decorrer dos anos”, explica Ana Carolina.

Construção coletiva das cadeias de valor do açaí e da madeira.

Foi para refletir sobre possibilidades de melhoria da qualidade de vida na comunidade, por meio do estabelecimento de cadeias de valor dos produtos florestais, que a produtora Marinalva da Silva Abreu, 23 anos, moradora da comunidade Nossa Senhora das Graças, na Resex Mapuá, esteve na oficina. Durante a caravana realizada em novembro no Rio Mapuá, Marinalva foi uma das mulheres que se apresentaram como voluntárias para cozinhar a alimentação que seria servida para os participantes. “Eu não pude acompanhar tudo, ouvi algumas coisas e depois pensei: quero saber mais sobre esse projeto, minha comunidade precisa. Por isso quis estar aqui e está sendo muito bom. O que eu tinha que falar eu falei, desenhamos, vimos mapa, fizemos calendário, fazer isso me fez acreditar que a melhoria vai chegar na nossa comunidade. Eles estão contando com isso porque é tão difícil a gente vê passar aquelas torinhas [sic] de madeira, porque a gente sabe que aquilo não dá futuro e ainda ajuda a acabar com nossos recursos. Com o plano de manejo as pessoas vão tirar a madeira certa, que dá futuro, dentro da legalidade”, disse.

Organização Social

Para compreender o nível de organização social das comunidades residentes nas três unidades de conservação foi realizado, também, a matriz F.O.F.A (Fortalezas, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças). A ferramenta possibilitou o diagnóstico da atual situação das organizações, além disso um roteiro de entrevista semiestruturado foi discutido com os grupos divididos por Resex. “Com isso, conseguimos acessar informações referentes às associações e cooperativas existentes, a situação junto aos órgãos legais, se estão ativas, como é feita a gestão e qual o nível de envolvimento deles com as organizações. Esse trabalho é fundamental para o manejo florestal dar certo, pois garante sustentabilidade aos empreendimentos florestais e garante escoamento da produção com preço justo”, destaca Maria Antônia Nascimento, consultora especialista em associativismo e cooperativismo, contratada pelo IFT para acompanhar as ações nessa esfera.

Planejamento de atividades

Ao final da oficina, organização e representantes comunitários pactuaram uma agenda mínima para ações do projeto que devem ocorrer nos próximos meses. Como as três Reservas estão em momentos diferentes da organização para o manejo florestal comunitário a agenda foi construída levando em consideração as diferenças territoriais, com algumas ações sendo compartilhadas entre todos. De acordo com o planejamento, serão realizados o levantamento dos Interessados no manejo florestal comunitário, reuniões preparatórias ao licenciamento ambiental; levantamento em campo para apontar o potencial madeireiro; capacitações e treinamentos em identificação botânica; troca experiência com outros empreendimentos comunitários que já realizam o manejo florestal, como a Coomflona, na Flona do Tapajós; e uma rodada de oficinas sobre organização social que deve ocorrer dentro das Reservas. Além disso, serão construídos os planos de negócio para as duas cadeias: açaí e madeira, pesquisa de mercado e curso de manejo de açaizais, para citar algumas agendas já pactuadas.

Participantes do evento reunidos após término das atividades.

O GT MFC do Marajó

O Grupo de Trabalho do Manejo Florestal Comunitário do Marajó (GT MFC do Marajó) atua na perspectiva de fomentar o desenvolvimento do manejo florestal realizado por populações tradicionais do Marajó que vivem em Unidades de Conservação de Uso Sustentável (UCs), especificamente nas Reservas Extrativistas (Resex) Mapuá (Breves), Terra Grande-Pracuúba (Curralinho e São Sebastião da Boa Vista) e Arióca-Pruanã (Oeiras do Pará). Os objetivos específicos do grupo são: oferecer assistência técnica florestal; implementar o manejo florestal de uso múltiplo da floresta; e fortalecer as cadeias de valor de produtos florestais.

O GT é uma articulação interinstitucional que atua em região com baixos índices de desenvolvimento humano municipal, e que busca defender causas socioambientais, como o fortalecimento de práticas de uso econômico da floresta para geração de trabalho e renda em prol da melhoria das condições de vida em comunidades rurais. Foi formalizado em maio de 2014, após debates sobre o fomento ao uso sustentável dos recursos naturais em áreas protegidas do arquipélago do Marajó. O grupo envolve sete instituições: Instituto Floresta Tropical (IFT); Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio); Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA); Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB); e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA); Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

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