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Comunitários do Marajó aprendem sobre análise financeira simplificada de iniciativas florestais

Computador e planilhas do programa Excel não estão na rotina de atividades do produtor agroextrativista Arnaldo Costa da Silva. Acostumado ao trabalho pesado na floresta, sobra pouco tempo para se dedicar à outras atividades, principalmente as que envolvem tecnologia. Mas foi o sonho de poder desenvolver a região em que mora e proporcionar qualidade de vida que ele viajou mais de doze horas de navio para realizar, em Belém, a oficina de capacitação “Green Value: uma ferramenta para análise financeira simplificada de iniciativas florestais”. A atividade foi desenvolvida nos dias 03 e 04 de agosto, no auditório da sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Atividades práticas movimentam oficina.

Arnaldo é morador da comunidade Santíssima Trindade, localizada às margens do rio Aramã Grande, na Reserva Extrativista Mapuá, cujo território pertence ao município de Breves, na região do arquipélago do Marajó. Ele é uma das lideranças que lutam pela implementação do manejo florestal comunitário de uso múltiplo. Apesar de não ter facilidade com o manuseio de computadores, Arnaldo explica que sempre anotou os dados referentes às atividades realizadas por ele em campo, o que é primordial para a análise realizada pela ferramenta. “É sempre interessante aprender coisas novas. O que eu levo comigo desse curso é a possibilidade de olhar para o final da safra dos produtos e saber se toda a produção foi viável, onde preciso melhorar e quanto foi meu custo total”, contou.

A oficina foi promovida pelo Grupo de Trabalho do Manejo Florestal Comunitário do Marajó (GT MFC do Marajó) que congrega instituições do poder público, terceiro setor e movimento social em torno dos debates sobre desenvolvimento sustentável. A Green Value (Valor Verde em português) é uma ferramenta simplificada que permite identificar e avaliar os indicadores e a situação financeira de empreendimentos rurais.

Simone Albarado (ICMBio) atuou como facilitadora durante oficina.

A analista do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e chefe da Resex Terra Grande Pracuúba, em Curralinho e São Sebastião da Boa Vista, Simone Albarado, ressalta que as experiências e as demandas das comunidades representadas serviram como estudo de caso para as atividades práticas do curso. Segundo ela, o Green Value é a ferramenta adequada para a gestão financeira de atividades, como lavoura, fruticultura, piscicultura e manejo do açaí, praticadas por comunidades extrativistas, ribeirinhas e tradicionais da Amazônia. “A razão principal é a simplicidade da ferramenta, de uso fácil por não especialistas”.

Metodologia

Outra vantagem, segundo ela, são as informações geradas, a partir de planilhas, que contribuem para a tomada rápida de decisões sobre o empreendimento analisado. A técnica do ICMBio diz que para funcionar adequadamente é importante que a metodologia integre a experiência e a demanda dos atores econômicos no contexto da cadeia produtiva em que estão inseridos. “É nas Unidades de Conservação de Uso Sustentável que a metodologia está sendo disseminada, por meio das oficinas organizadas pelo GT do Marajó”.

Essa crescente disseminação da metodologia em comunidades amazônicas pode ser explicada pela sua origem: pensada e construída a partir de experiências comunitárias, segundo explicou Ana Carolina Vieira, Coordenadora do Programa Florestas Comunitárias do Instituto Floresta Tropical (IFT), organização não-governamental que anima o GT do Marajó e participou do desenvolvimento da ferramenta.

A metodologia Green Value foi desenvolvida em tese de doutorado da norte-americana Shoana Humphries, com colaboração do Dr. Thomas Holmes, cujo objeto de pesquisa era o Manejo Florestal Comunitário no Brasil e no México. Ao analisar a viabilidade financeira das iniciativas florestais, Shoana constatou, por exemplo, que alguns custos ou não eram incluídos ou eram calculados de forma super ou subvalorizados.

Em grupos, participantes interagem com as planilhas da ferramenta Green Value.

Para a coordenadora do IFT a escolha do Green Value tem base na simplicidade de operacionalização da ferramenta, ao contrário de metodologias empresariais que exigem conhecimentos técnicos. Por ser autoexplicativa e de fácil domínio, a metodologia reúne requisitos para aplicação em projetos agroextrativistas e organizações comunitárias.

A facilidade no manuseio da ferramenta foi o que chamou atenção de Luiz Tenório, morador e presidente da Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Arióca Pruanã (Amoreap). “Tenho acompanhado a agenda de luta dos movimentos sociais da nossa região para estabelecer desenvolvimento e trazer bem-estar. Apprender a manusear essa ferramenta, e compartilhar com os outros companheiros como fazer isso, é uma forma de organizar melhor nosso trabalho. Tenho certeza que é possível colocar em prática na nossa realidade”, argumentou.

Desenvolvida pela Earth Innovation Institute (EII) e o Serviço Florestal dos Estados Unidos a Green Value é uma ferramenta que ajuda os gestores a monitorar e calcular os custos e a renda, negociar preços mais justos, melhorar a gestão financeira e a transparência e fortalecer a sustentabilidade de dos negócios. A Green Value (que significa Valor Verde em inglês) foi desenvolvida originalmente para empresas madeireiras comunitárias no Brasil, mas desde então tem sido usada com muito sucesso em toda a região amazônica e na Guatemala com iniciativas vendendo um variado de produtos e serviços, como a castanha-do-brasil, o artesanato, o turismo e os créditos de carbono.

Uma pesquisa de monitoramento recente realizada pela EII com os participantes das oficinas constatou que 46% dos entrevistados usaram a Green Value para analisar os custos e a renda de 41 produtos e serviços diversos.  Além disso, 35% dos entrevistados capacitaram um total de 150 pessoas para usar a Green Value.  Os impactos identificados como resultado do uso da Green Value incluem: melhor monitoramento dos custos e da renda; maior transparência; custos reduzidos; renda maior; melhor rentabilidade; melhor processo de tomada de decisões; menos conflitos; melhor viabilidade financeira.

Participantes comemoram aprendizado no encerramento da oficina.

Grupo de Trabalho

Em funcionamento desde 2014, o GT atua na perspectiva de fomentar o desenvolvimento do manejo florestal realizado por populações tradicionais que vivem em Unidades de Conservação de Uso Sustentável (UCs) na região do Marajó.  Compõem o grupo o Instituto Floresta Tropical (IFT), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Empresa Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater-Pa), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), e INCRA. O grupo conta, ainda, com o apoio da Prefeitura Municipal de Breves.

Os objetivos específicos do GT MFC do Marajó são: oferecer assistência técnica florestal; implementar o manejo florestal e uso múltiplo da floresta; e fortalecer as cadeias de valor de produtos florestais. O grupo foi responsável pelo Encontro de Nivelamento Técnico e Institucional, que elucidou as discussões sobre os procedimentos para o licenciamento do manejo florestal em Unidades de Conservação, previsto na Instrução Normativa Nº 16/2011, do ICMBio; desenvolveu, também, um levantamento das serrarias existentes na Resex Mapuá; realizou um seminário sobre Manejo Florestal Comunitário; organizou a oficina de Capacitação de Conselheiros da Resex Mapuá; e uma Caravana de Sensibilização para o Manejo Florestal Comunitário.

Para saber mais sobre a ferramenta, visite: https://www.green-value.org/inicio-port/

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