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Caravana Florestas Comunitárias percorre Unidades de Conservação do Marajó e apresenta projeto Florestas Comunitárias

Foram trinta dias abordo do navio Comandante Jorge Neto. Algumas dezenas de quilômetros rio abaixo e rio acima. Cerca de 1.035 produtores agroextrativistas, beneficiários das Unidades de Conservação, presentes nas atividades, destes participantes 33% eram mulheres. Cerca de 16 polos comunitários visitados em três Unidades de Conservação de Uso Sustentável localizadas no arquipélago do Marajó: Mapuá, Arióca Pruanã e Terra Grande-Pracuúba. Esse foi o saldo da Caravana Florestas Comunitárias, realizada no período de 12 de novembro a 11 de dezembro pelo Grupo de Trabalho do Manejo Florestal Comunitário do Marajó (GT MFC do Marajó), no âmbito do projeto Florestas Comunitárias, desenvolvido pelo Instituto Floresta Tropical (IFT) em parceria com o Fundo Amazônia.

Projeto Florestas Comunitárias é desenvolvido pelo IFT em parceria com o GT MFC do Marajó e Fundo Amazônia

A Caravana aportou nos principais rios das Reserva Extrativista (Resex) com o objetivo de apresentar o projeto Florestas Comunitárias; sensibilizar as populações tradicionais que residem em Resex para o Manejo Florestal Comunitário, orientando quanto a possibilidade de extração madeireira legal via manejo florestal de impacto reduzido; apresentar o GT MFC do Marajó e as ações desenvolvidas. O tema central da Caravana foi o desenvolvimento econômico e conservação da sociobiodiversidade a partir do fortalecimento das organizações sociais para o manejo florestal comunitário de uso múltiplo, com ênfase no processo de associativismo e cooperativismo. “Os povos da floresta lidam com seus recursos tradicionalmente há dezenas de anos. Contudo, para que se desenvolvam modelos de negócios florestais sustentáveis é fundamental que eles estejam unidos e engajados em um objetivo comum, possuírem apoio e assessoria em atividades específicas de capacitação e treinamento em várias ações, por exemplo: noções administrativas e financeiras”, conta Ana Carolinas Vieira, coordenadora do programa Florestas Comunitárias do IFT.

Participantes da Caravana compartilham experiências de trabalhar com madeira e Açaí.

Os territórios que receberam a caravana compõem a área de atuação prioritária do GT MFC do Marajó. Porém, as ações para estabelecer cadeias produtivas sustentáveis, a partir do manejo florestal de uso múltiplo, estão em diferentes momentos em cada unidade de conservação. Se de um lado Mapuá já possui uma cooperativa estabelecida e realizou mapeamento participativo que possibilitou a seleção das áreas para o manejo Florestal Comunitário por meio de uma avaliação do potencial madeireiro, do outro, Arióca Pruanã e Terra Grande-Pracuúba estão iniciando o debate sobre as atividades produtivas com potencial para estabelecimento de cadeias e negócios florestais. Ainda que as atividades de diagnósticos desenvolvidas pelo GT desde 2014 tenham apontado madeira e açaí como produtos prioritários para comercialização pelas comunidades, a caravana e as próximas ações devem confirmar essa vocação.

A presença dos gestores do ICMBio durante as Caravanas apontam sólida parceria interinstitucional.

Fazem parte do GT, além do IFT, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Empresa Assistência Técnica e Extensão Rural do Pará (Emater-Pa), Instituto Federal de Educação Tecnológica do Pará (IFPA), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio).

Parte da equipe que participou da Caravana Florestas Comunitárias.

Mapuá

A Reserva Extrativista Mapuá está localizada no município de Breves e compõe os territórios de atuação do IFT desde 2014. Por lá, a caravana aportou em cinco polos comunitários: Lago do Jacaré, Santa Rita, Vila Amélia, Bom Jesus e Boa Esperança. As atividades contaram com a presença de 437 pessoas, das quais 30% foram mulheres. “A caravana foi positiva, bem produtiva para gestão da unidade pelo alto número de participantes. Isso mostrou que eles estão abertos, receptivos, com a proposta do projeto. O diferencial foi tratar da temática sobre organização social que é a base para realizar o manejo florestal comunitário. Tudo que está relacionado à organização vai contribuir com a gestão da unidade”, analisa Nayane Menezes, gestora da Resex Mapuá.

Caravana na Resex Mapuá foi marcada por forte presença feminina.

Na reserva, a construção de uma sólida relação de parceria e transparência entre o GT e as comunidades ficou clara nas falas de algumas lideranças. Para Rita Freitas, da comunidade Santa Rita, sem o estabelecimento de redes de apoio a vida na comunidade seria ainda mais complicada. “Temos muitas riquezas aqui que podem ser utilizadas para trazer benefícios para as comunidades, porém, a gente ainda precisa que o povo entenda como fazer isso. O GT tem feito isso, tem vindo, conversado. Quando atividades e projetos como esse chegam até nós [sic] é uma forma de trazer conhecimento. Agora depende da gente [sic] agarrar as oportunidades”, comentou durante a atividade.

Para Nayane, a chegada do projeto à unidade vai contribuir significativamente com o desenvolvimento do território. “Porque respeita a tradição do açaí e da madeira, eles trabalham há muito tempo com isso, antes de se tornar unidade de conservação. O projeto tem esse caráter de trazer ferramentas e técnicas para que as atividades estejam dentro da legislação vigente”, comentou.

 Mapuá é terra de grandes lideranças regionais, como Antônio Ferreira Gonçalves, o “Galo”, da comunidade Boa Esperança, que acompanhou a caravana na condição de vice-presidente da Associação dos Moradores da Resex Mapuá (Amorema). “A associação é parceira do GT porque sabe da importância das ações desenvolvidas e acredita que juntos podem fazer ainda mais”, diz. Estiveram presentes na Caravana em Mapuá, além do IFT e da Amorema, o ICMBio, a Cooperativa do Aramã e do Mapuá (Cooama) e um estudante da Casa Familiar Rural localizada no interior da Resex.

Arióca Pruanã

A caravana na Resex Arióca Pruanã, que está localizada no município de Oeiras do Pará, contou com a participação, também, de três professores do IFPA – Campus Cametá, Ideflor-Bio, além do acompanhamento do presidente da Associação dos Moradores da Reserva Extrativista       Arióca Pruanã (Amoreap), Luiz Tenório. A atividade ocorreu em seis polos comunitários: Melancial, são Sebastião, São Raimundo, Vila Valério, Deus Proverá e Palmeiras. Participaram cerca de 355 pessoas, sendo 35% do público composto mulheres. A novidade que movimentou as reuniões para além do Projeto foi a notícia transmitida pelos professores de que o campus vai ofertar a partir do ano que vem o curso Técnico em Florestas, e 50% das vagas ofertadas serão reservadas aos jovens moradores da UC.

De acordo com Luiz Tenório, é a possibilidade de fortalecer a associação que o deixa animado para acompanhar as atividades e contribuir com a mobilização dos moradores da unidade para participarem, já que Arióca não possui uma cooperativa. “Sonhávamos com uma alternativa legal para a atividade madeireira. Agora essa alternativa chegou. Tem o recurso, tem as pessoas para trabalhar. Agora é hora de nós, enquanto extrativistas, nos organizarmos. Nada pode ser feito sem organização”, comentou. Arióca acessa alguns programas governamentais, como o projeto Sanear, Seguro Defeso e Bolsa Família. As vilas estão predominantemente em áreas de terra firme, apresentando uma dinâmica logística de estradas e vicinais diferentes dos outros dois territórios.

Participantes ouvem atentamente informações sobre o Projeto Florestas Comunitárias.

Na avaliação do gestor da unidade, o analista do ICMBio Patrick Rabelo, a caravana superou as expectativas em termos de organização e do alcance dos objetivos. “A coesão dos trabalhos, a fala de cada ator, cada representante das organizações presentes falando muito bem de seu papel e o que mais me deixou feliz foi a participação dos comunitários, isso foi fundamental”, explicou. Para ele, além de gerar a renda para os moradores, principalmente aqueles que estarão diretamente ligados ao manejo florestal comunitário de uso múltiplo, o projeto vai fortalecer a consciência ambiental. “O projeto é piloto para exploração dos recursos na Resex. Sabemos que o território tem um potencial muito grande, tanto em madeira como açaí. Além das capacitações direcionadas a organização social, não apenas a renda, mas ao conhecimento que eles vão adquirir e poderão utilizar para outras atividades com potencial produtivo. Uma única entidade atuando sozinha não vai proporcionar muitas alternativas, mas um grupo, como o GT, pode!”, defende Patrick.

Terra Grande-Pracúuba

O território da Resex Terra Grande-Pracuúba está compreendido entre os territórios de dois municípios paraenses, Curralinho e São Sebastião da Boa Vista. Na porção localizada em Boa Vista, a caravana esteve no polo comunitário Estância, já em Curralinho foram: Timbotuba, Humarizal (Rio Piriá), Boa Fé (3 Bocas) e Portugal. Participaram das atividades 243 pessoas, sendo 34% mulheres. Nesta caravana estiveram presentes, além do IFT, a EMATER de Curralinho.

De acordo com Ana Carolina, o açaí é uma produção que movimenta a economia familiar e a dinâmica da UC. “Isso se reflete na qualidade das casas e nas infraestruturas das comunidades, como nos trapiches, igrejas e espaços comunitários. A presença de motores rabetas é muito frequente nas casas das famílias, os rios bem movimentados com embarcações, cascos e rabetas, que são utilizados para o transporte do açaí e do palmito”, conta a coordenadora.

Caravana na TGP contou com participação de produtores agroextrativistas.

Na fala de algumas lideranças, ficou latente a urgência dos produtores agroextrativistas em acessar os recursos naturais de forma legal e organizada. A liderança comunitária Edilson Prata Aguiar, do polo Boa fé, ressaltou a importância de estarem unidos para o projeto ser realizado. Durante sua fala, ele discursou sobre o exemplo da Cooperativa Mista da Flona Tapajós (Coomflona) que realiza o manejo florestal comunitário. “Eles usam o recurso obtido com a venda da madeira e investem na comunidade, mas para isso estão organizados. Não foi fácil. Teve muita luta e muito trabalho para acontecer. Mas a gente também pode fazer acontecer”, defendeu Edilson.

Terra Grande, assim como Arióca, não possui uma cooperativa, e conta com o apoio da associação mãe da Resex para atividades de apoio à cadeia produtiva e luta por garantia de políticas públicas. “Um dos grandes potenciais daqui da região, também, é o roçado. É possível pensar em fortalecer sistemas agroflorestais que é o que muitos deles já fazem. Durante a execução do projeto podemos apoiar neste sentido, para que eles de fato trabalhem com o manejo florestal de uso múltiplo”, defende Artemas Ribeiro, engenheiro florestal da Emater-Pa que acompanhou toda a caravana.

Identidade Visual

Como estratégia de envolvimento das comunidades no processo de desenvolvimento do projeto, o IFT aplicou, durante a caravana, metodologia de construção participativa de identidade visual do projeto Florestas Comunitárias. “A proposta era que eles nos dessem elementos para desenhar uma marca que dialogue com os anseios e necessidades das populações tradicionais. Ao aplicar dinâmicas de desenho livre e palavras-chave, acreditamos ter interagido com cada participante de modo a fomentar neles o desejo de saber mais sobre o projeto e participar”, explica Elias Santos, jornalista ambiental do IFT.

Aplicação de metodologia de produção compartilhada de identidade visual.

Encaminhamentos

Em cada um dos polos onde a caravana aportou foram eleitos 60 representantes comunitários para acompanhar agenda específica do projeto. Cada um assumiu a responsabilidade de participar do encontro intitulado “Oficina Diagnóstico e Planejamento Florestas Comunitárias “, que deve durar cerca de quatro dias no município de Breves na última quinzena de janeiro; e ao retornar para as comunidades e informar as decisões tomadas de forma participativa. Na ocasião, serão realizados: mapeamento participativo dos usos dos recursos naturais; Calendário produtivo das três Resex; diagnóstico das cadeias produtivas; diagnóstico das organizações sociais; e o planejamento das ações futuras do projeto.

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