Bem vindo: contato@ift.org.br | (91) 3202-8300

Notícias

Em curso no Pará, oito países do bioma amazônico definem diretrizes de cooperação para conservação da biodiversidade por meio do manejo florestal sustentável

 “As fronteiras que nos separam são apenas geopolíticas. Estamos inseridos no mesmo território e com os mesmos objetivos. Somos todos hermanos”. O argumento foi proferido pelo biólogo colombiano Emil Hernández durante o curso internacional “Conservação da Biodiversidade através do Manejo Florestal Ecologicamente Responsável das Florestas Produtivas da Amazônia”, realizado entre os dias 20 e 27 de setembro, em Belém e Paragominas, no Centro de Manejo Florestal Roberto Bauch (CMFRB), do Instituto Floresta Tropical (IFT).

O curso foi uma realização da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), por meio do projeto “Fortalecimento Institucional dos Países Membros da OTCA em Manejo Florestal Ecologicamente Responsável e Conservação da Biodiversidade em Florestas Manejada da Amazônia”, e contou com a parceria do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e apoio do IFT. A atividade contou com 25 participantes de diversas nacionalidades, como Bolívia (3), Perú (2), Colômbia (2), Venezuela (1), Suriname (3), Guiana (2), Equador (3) e Brasil (10), além de representantes de instituições parceiras.

Curso no IFT fortalece competências para manejo florestal sustentável.

De acordo com Vicente Guadalupe, coordenador técnico regional da OTCA, o objetivo do curso foi reunir profissionais florestais de diferentes setores para vivenciarem na prática as ações de manejo florestal sustentável. “A ideia é que esses profissionais que se formaram no conhecimento do manejo convencional, tradicional, e não tinha conhecimentos sobre aplicação prática do manejo florestal sustentável e exploração de impacto reduzido, possam observar como que se realiza na prática uma atividade que visa a conservação da biodiversidade. Assim, eles podem ver que é possível aplicar essas técnicas. Para isso, fizemos algumas parcerias, como com o IFT que é um centro reconhecido na Amazônia”, explica Vicente.

Para Hanry Alves Coelho, da assessoria técnica do gabinete da diretoria do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a parceria para realização do curso é essencial para a missão institucional pois promove a integração de diferentes nações no debate sobre o manejo da floresta amazônica que ainda precisa ser fortalecido. “Compor parcerias como esta, além da troca de experiências, é uma forma de pensar juntos o como fazer. Afinal, o manejo florestal é sim sustentável e deveria ser há muito tempo a opção número um e não só para a conservação da biodiversidade, mas como um sistema de mercado sustentável. Trabalhando isso com outros países, tendo o mesmo entendimento, a gente ganha força internacionalmente”, afirma Hanry.

Capacitação

O curso foi desenvolvido em duas etapas. A primeira, realizada em Belém do Pará, reuniu dois módulos teóricos intitulados “Instrumentos de Política para o Manejo Florestal e a Biodiversidade na Amazônia” e “Fundamentos para a integração da biodiversidade no Manejo Florestal Sustentável das florestas amazônicas”. Ambos proporcionaram aos participantes compreender os arranjos políticos e institucionais estabelecidos pelos países que compõem a Amazônia transnacional, os tratados, acordos e os objetivos estratégicos para integração das ações da OTCA aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável vislumbrados pela Organização das Nações Unidas (ONU) e a parceria com o Convênio sobre a Diversidade Biológica (CBD) e International Tropical Timber Organization (ITTO).

Atividade na sala de aula do CMFRB.

Os módulos três “Planejamento de manejo florestal sustentável e integração da biosiversidade” e quatro “Boas Práticas de Manejo Florestal Sustentável” foram realizados na fazenda Cauaxi, área onde está localizado o CMFRB, do IFT. O centro possui uma área florestal de aproximadamente cinco mil hectares, na qual são realizadas capacitações, treinamentos, pesquisa e demonstrações. O Centro de Manejo Florestal está localizado nas áreas florestais da Cikel Brasil Verde, empreendimento de grande porte com planos de manejo florestal sendo executados.

Participantes do curso e técnicos do IFT em campo.

A metodologia do curso foi desenvolvida para proporcionar o compartilhamento de conhecimento por meio da facilitação realizada por atores tanto do IFT quanto da OTCA. De forma lúdica, e em contato direto com a floresta, foi possível estabelecer o intercâmbio entre as nações, tão esperado pela organização.

As atividades práticas em campo com a aplicação de técnicas de exploração de impacto reduzido pré-exploratórias, exploratórias e pós-exploratórias, como corte direcional de árvores, arraste de toras com uso de skidder, aberturas de ramais de arraste, entre outras, trouxeram novas perspectivas, já que muitos estavam vivenciando pela primeira vez,  inclusive para quem atua no campo do ensino e pesquisa, como a professora doutora da Universidade do Mato Grosso (UFMT), Rafaella De Angeli Curto: “fiquei muito satisfeita com as atividades pós-exploratórias que eu vi. As experiências de tratamentos silviculturais realizadas aqui não são comum em nenhum outro lugar do  país, é bem difícil ter esse tipo de trabalho, fiquei bem surpresa”, disparou quando questionada sobre a experiência de estar no meio da floresta vivenciando o manejo florestal.

A conexão entre manejo florestal sustentável e a conservação da biodiversidade, tema transversal em todos os debates realizados no curso, trouxe uma nova perspectiva para a professora. “Uma coisa que me chamou atenção (…) foi pensar para além das questões exatas da engenharia (…) A gente não para e pensar em questões como a biodiversidade em si, a questão da fauna (…). Eu pensei, nossa eu não dedico tempo a isso em sala de aula, e o aluno é o futuro profissional e eles pensam ‘ah vou cumprir o que está na legislação e já deu’, e na legislação não tem isso específico, esse tipo de cuidado tem que vir com o engenheiro”, argumentou Rafaella.

Metodologia participativa proporcionou troca de experiências.

É essa transformação no olhar de quem atua no setor florestal que o supervisor de projetos do ITTO, Gerhard Breulmann, afirma ser o principal motivador para que a instituição apoie essas atividades. “Nossa principal intenção é melhorar o manejo florestal sustentável por meio das organizações de implementação aqui representadas (…) Essa cooperação bilateral fortalece a sustentabilidade por meio do treinamento das pessoas na gestão florestal sustentável em termos de proteção da biodiversidade das florestas. Flora e fauna estão conectadas”, destacou.

Blaise Emile, consultor da CDB, faz coro à Gerhard e defende a vivência prática do manejo florestal como elemento transformador. “Foi muito interessante vir aqui para participar com os representantes dos países, estamos felizes com o trabalho que está sendo feito porque tem a parte teórica e a aplicada, com trabalho e estudos de campo, que é importante para se dar conta da realidade do manejo sustentável de florestal tropicais e como ela se dá na prática”, disse.

Intercâmbio

Tereza Castilillion, coordenadora de meio ambiente da OTCA, enaltece a parceria transnacional, ao afirmar que Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela, Peru, Suriname e Guiana, assinaram um tratado para gerenciar e manejar suas florestas de forma sustentável, com respeito à biodiversidade. “Por meio da cooperação estamos implementando projetos com respeito ao manejo sustentável da região amazônica. Agora estamos aqui no treinamento que focaliza a extração de impacto reduzidos e reúne peritos de oito países para trocarmos experiência e conhecimentos nesse sentido”, comenta Tereza.

Segundo a coordenadora, o IFT foi identificado como centro de excelência no Brasil, com experiência em técnicas que priorizam a redução do impacto da extração madeireira. “Então para mostrar a forma como o IFT está colocando isso em prática no campo e nas suas áreas estamos reunindo pessoas que trabalham com madeira ou que estão ligados ao setor florestal, seja governo ou setor privado. Reunimos para poder mostrar como pode ser feita a extração com impacto reduzido sobre a região amazônica para que nossas florestas possam ser mantidas intactas”, argumenta Tereza.

Devika Guruchrram, Oficial de Desenvolvimento Comunitário da Comissão Florestal da Guiana, reitera que a Guiana faz parte da Bacia Amazônica e já possui um sistema de manejo que se parece com o que é feito no Brasil, porém com algumas diferenças. “Há certas áreas que vimos aqui onde, quando comparamos com a forma que fazemos na Guiana, há coisas para melhorar, tanto no Brasil como na Guiana, então vejo esse curso como uma forma de fortalecer nossas áreas de manejo florestal e também agregar o que fazemos na Guiana com o manejo no Brasil”, defende.

O curso de capacitação foi desenvolvido a partir dos resultados da Fase I do Projeto, correspondendo à Avaliação Nacional da Situação do Manejo Florestal. De acordo com a organização, com a implementação do curso, que é piloto, inicia um processo de desenvolvimento e fortalecimento da capacidade técnica necessária para implementação e aprimoramento de modelos de manejo florestal e práticas ecologicamente responsáveis, com abordagem de gestão territorial, que favorece a conservação das florestas e sua biodiversidade, assim como a manutenção dos meios de subsistência das comunidades locais e indígenas da Amazônia, cumprindo assim com o objetivo central do projeto. Para além da formação, o curso também objetivou a construção de diretrizes para cooperação entre os países e que essas irão nortear as ações da OTCA.

Reconhecimento

A Secretaria Permanente da OTCA, por meio do Projeto OIMTC/CDB/OTCA, conferiu no primeiro dia de atividades teóricas do curso reconhecimento, ao IFT, por ser um Centro de Excelência em Capacitação no tema de Manejo Florestal Sustentável na Região Amazônica. O reconhecimento foi entregue ao secretário executivo, Iran Pires, na presença do fundador do IFT, Johan Zweede, e da coordenadora do Programa Florestas Comunitárias, Ana Carolina Vieira.

“O IFT tem sido incansável na luta pela implementação do manejo florestal na Amazônia, atuando, inclusive, com o fortalecimento dos empreendimentos comunitários. O Centro de Manejo é uma iniciativa duradoura e única no Brasil com o perfil que tem. Esse reconhecimento é fruto do trabalho de muita gente que acredita que é possível conservar a Amazônia utilizando seus recursos naturais de forma sustentável”, discursou Iran.

Iran Paz Pires recebe reconhecimento das mãos de Vicente da Guadalupe, da OTCA.

Próximos passos

O mesmo curso será realizado posteriormente em outros dois Centros de Excelência Regionais (CER) estratégicos para os países membros: Instituto de Pesquisa da Amazônia Peruana (IIAP), em Iquitos, no Perú; e Centro de formação florestal incorporado (FTCI), em Georgetown, na Guiana.

para além de formação o curso também objetivou a construção de diretrizes para cooperação entre países e que essas irão nortear as ações da OTCA.

Deixar comentário